O universo, em sua estrutura fundamental, é um arranjo de abundância incomensurável. A natureza, por meio de seus ciclos perfeitos, ecossistemas integrados e recursos renováveis, provê de forma inerente tudo o que é necessário para o sustento e para a evolução integral da humanidade. Há alimento, espaço, beleza e mistério suficientes para saciar tanto as necessidades biológicas quanto as inquietações transcendentais do espírito humano. No entanto, ao longo da jornada histórica, a percepção dessa fartura original foi obscurecida. A riqueza, que outrora era entendida como o fluxo natural da vida, tornou-se algo artificialmente intensificado e distorcido pela atitude materialista em relação à vida.
É imperativo compreender que a riqueza em si jamais foi o problema central das crises humanas. O ouro, a terra, a tecnologia ou a moeda são neutros; eles não possuem inclinação moral própria. O verdadeiro problema reside na relação complexa do homem com ela. O nó Górdio da questão ética está no que o indivíduo faz com a riqueza e em como a obtém; são os motivos psicológicos que impulsionam a busca pelo ganho e os motivos invisíveis que ele põe em movimento por meio dela que determinam se a fortuna será uma bênção ou uma maldição social. Quando o acúmulo financeiro deixa de ser um meio de viabilizar a vida e a arte e passa a ser o fim absoluto da existência, o homem inverte a ordem natural das coisas, tornando-se escravo daquilo que deveria dominar.

O materialismo contemporâneo não é apenas um sistema econômico, mas uma cosmovisão metafísica reducionista. Ao negar ao indivíduo qualquer tendência ou dimensão espiritual, ao privá-lo de qualquer esperança de imortalidade e ao negar-lhe quaisquer incentivos morais para a autodisciplina ou o autocontrole, essa filosofia arranca os freios existenciais da civilização. Sem o horizonte da eternidade ou o compromisso com leis universais de causa e efeito moral, a vida humana é esvaziada de significado profundo.
O resultado direto desse esvaziamento é que a sociedade conduz a pessoa comum ao problema da satisfação imediata. Se esta vida física é tudo o que existe, e se o tecido da realidade se resume a interações mecânicas de átomos, o hedonismo imediatista surge como a única resposta lógica. O imperativo passa a ser consumir o máximo possível, o mais rápido possível.
Esse arranjo pavimentou o caminho para o nosso sistema atual que é, essencialmente, um problema de dependência. Ele é profundamente viciante em sua raiz psicológica. Operamos sob a lógica da esteira hedonista: quanto mais obtemos, mais queremos; e quanto mais queremos, menos possuímos daquelas coisas que são verdadeiramente essenciais para a nossa segurança interior, como a paz, o autoafeto, a conexão comunitária e a quietude mental. Esse vício neuroquímico e cultural pelo “mais” é o grande motor que está destruindo a paz de espírito coletiva. Sob a lente da sabedoria clássica, uma pessoa que sempre quer mais é, por definição, sempre pobre, não importa o quanto possua em suas contas bancárias, pois a pobreza real não é a falta de bens, mas a infinitude dos desejos insaciáveis.

Contra a arrogância do acúmulo materialista, ergue-se a barreira intransponível da finitude biológica. O ser humano é um ser de existência efêmera, um sopro no tempo cósmico, cujo destino inevitável é o término final de sua existência material. Nenhum império, palácio ou fortuna pôde, até hoje, subornar a morte ou comprar um único segundo extra de ar quando o relógio biológico cessa de funcionar.
Essa certeza implacável da mortalidade joga uma luz corretiva sobre as nossas prioridades diárias. A mortalidade tem tudo a ver com o que sobrevive à morte. No momento do desfecho final, o saldo bancário torna-se irrelevante, mas o caráter, a assinatura vibracional da alma, permanece. O que realmente importa no balanço existencial é o que você fez com a vida com que foi agraciado: quão honesto você foi em suas transações com o mundo, quão atencioso e cuidadoso foi com os que cruzaram o seu caminho, quão generoso e sábio se mostrou na administração da riqueza material e intelectual que passou pelas suas mãos. A morte funciona como o grande filtro que separa o ouro do caráter das cinzas dos bens acumulados.

Para entender quão profunda é a nossa distorção atual, basta olhar para o retrovisor da história. Embora a riqueza material existisse na antiguidade, manifestada em tesouros reais, rotas de comércio e espólios de guerra , ela não era considerada pelas mentes brilhantes da época como um adorno de particular importância para a dignidade do homem. Nas sociedades tradicionais, o acúmulo egoísta era visto com desconfiança e desonra.
Esse desapego relativo ocorria porque a estrutura da riqueza material era completamente ofuscada pelas grandes instituições de mistério, como os mistérios de elêusis, o hermetismo egípcio e as escolas de filosofia iniciática. Essas instituições ensinavam aos cidadãos as verdades eternas sobre a alma e o cosmos. Elas preconizavam que o direito da divindade de governar a humanidade era inquestionável, estabelecendo que o mundo visível era apenas um reflexo pálido de uma ordem divina superior. Nesses centros de sabedoria, aprendia-se que todo o bem real era realizado em nome do bem eterno, e não para a exaltação do ego efêmero. A verdadeira nobreza de um homem era medida pelo seu grau de iniciação nas virtudes, na justiça e no conhecimento das leis invisíveis, relegando as posses físicas a um plano meramente utilitário e secundário.
Na modernidade, as instituições de mistério foram substituídas pelas engrenagens do marketing de massa. Nós fomos sistemática e deliberadamente treinados para desejar o supérfluo e a ignorar o essencial. Fomos condicionados desde a infância a acreditar que o próximo modelo de carro, o último lançamento de celular ou uma casa maior preencherá o abismo que sentimos no peito. No entanto, o erro de cálculo é trágico: esse vazio não é financeiro, mas é um vazio de propósito, uma crise de significado que nenhuma quantidade de matéria pode estancar, pois não se pode preencher uma fome espiritual com alimentos físicos.

A grande lição cósmica que o materialismo tenta esconder é que tudo o que temos de material é apenas um empréstimo da natureza; um empréstimo com prazo de validade totalmente desconhecido. O filósofo estoico Sêneca já alertava que tudo o que nos rodeia, o que nos pertence no papel e o que amamos apaixonadamente, são bens de um senhor estrangeiro. O destino e as leis da vida nos deram o usufruto temporário dessas coisas, mas nunca a propriedade permanente. O tecido da realidade é dinâmico: amanhã, o que hoje é teu por direito legal, pode ter voltado para quem o emprestou, seja por um revés econômico, por uma tragédia natural ou pelo chamado inevitável da morte.
Nós não somos donos de nada; estamos aqui na Terra estritamente como mordomos, administradores temporários de recursos por um período muito curto. Quando tentamos possuir as coisas permanentemente, prendendo-nos a elas com garras de apego e medo, estamos travando uma batalha perdida e estúpida contra a lei universal da mudança e da impermanência, que dita que tudo o que se forma precisa, eventualmente, se dissolver.
A cura para a neurose consumista da nossa era exige uma revolução radical na percepção de quem somos. Nós somos seres espirituais vivenciando uma experiência física, e não seres físicos tentando, por meio de artifícios místicos, ter uma experiência espiritual. A nossa pátria original, a nossa essência e o nosso valor definitivo residem na consciência viva que habita em nós, e não na periferia dos objetos que nos cercam.

Quando compreendemos e assimilamos essa verdade profunda, toda a questão da riqueza se coloca em seu devido lugar na hierarquia da vida. Ela perde o seu caráterde aprisionamento e também de adoração. Passamos a olhar para o dinheiro e para os bens com total pragmatismo e leveza: nós os utilizamos com gratidão quando precisamos para a nossa subsistência e para o belo, compartilhamos esses recursos com generosidade quando podemos para aliviar o sofrimento alheio, e jamais, sob hipótese alguma, permitimos que a riqueza se torne o centro da nossa existência. Livres da ilusão da posse, descobrimos que a maior riqueza disponível no universo é a própria vida, vivida com propósito, dignidade e lucidez no eterno aqui e agora.
Leitura:
- -Emanuel Swedenborg (1764). Divine providence.
- Ralph Waldo Emerson (1841). The over-soul, essays: first series.
- Manly Palmer Hall (1986). Wealth and drug addiction.
- Manly Palmer Hall (1986). Wealth and self destruction.